sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Contos do @vincevader

Normalmente eu uso blog para divulgar pequenos petardos: imagens, vídeos do YouTube e conteúdos curtinhos. Porém, queria aproveitar esse espaço para publicar alguns contos que estou escrevendo.

Pois é, depois do livro de MICRO CONTOS vou escrever um web book de contos brevemente. Será magistralmente ilustrado pelo Marcelo Calote do PRIMEIRO ANDAR e vocês já podem conferir uma prévias das ilustras no material a seguir.

Ainda está sem revisão de texto, mas aguardo sugestões, críticas e opiniões. Ahhh, sim! Para os puritanos de plantão: o material a seguir contém palavrões, é uma obra de ficção que possui o único intuito de entretenimento. Enjoy.




O FILHO DA P#t@

Todo mundo algum dia na vida já se deparou com esse exímio espécime da raça humana: o filho da puta. Não estou me referindo àqueles que efetivamente são advindos do útero de uma mulher da vida, mas sim aos que propositalmente costumam prejudicar o alheio.
Há diversos graus de filhadaputice: vai do sujeito que sacaneia de leve um amigo, passando por aquele que às vezes ferra uma família inteira e vai até alguns que literalmente fodem (se me permitem o baixo calão) um país inteiro; e nesse último caso poderíamos montar um compêndio com nossa rica fauna parlamentar brasileira.
Porém, não é dos filhos da puta governamentais que iremos falar hoje, falaremos sobre o Tito, um pai de família classe média cujo grande mérito é ser um filho da puta com o próprio rebento, o Carlinhos. Analisem com carinho o caso a seguir e me digam se o Tito é ou não é um grandessíssimo filho de uma puta.
Um dia Tito acordou de bom humor, era um sábado ensolarado e o dia era propício para visitar os parentes do outro lado da cidade. A sua mulher dava plantão no hospital até tarde da noite, logo, para dar uma escapadinha e ir ver os primos - e tomar umas cervejinhas com eles – nosso herói teria que levar o filho Carlinhos, de três anos (na verdade, quase quatro), junto.
A idéia até que era boa: os primos e os tios viviam dizendo que o Tito e a esposa levavam pouco o menino pra ir visitar a família; na verdade Arlete não era muito chegada nesses parentes do marido. Mas, era a situação ideal: passaria o dia na farra e ainda faria o filme com a família. Só havia um problema.
A casa dos parentes de Tito era um lugar pouco convidativo para um pirralho de três anos de idade. Não tinha crianças e não tinha brinquedos, só tinha um bando de adultos que depois da primeira caixa de cerveja começa a falar alto e fazer criativas brincadeiras que replicavam falas de algum programa humorístico da televisão. Tito sabia que o pivete ia recusar a idéia, porque além de tudo, ele odiava a tia mais velha que sempre vinha com alguma gracinha do tipo beliscar e pedir pra mostrar o documento.
Tito pensou um pouquinho e teve um momento de iluminação. Foi correndo pro quarto do garoto, acordou-o com muitas brincadeiras e assim que Carlinhos estava totalmente desperto mandou o seguinte petardo:
“Filho, vamos passar o dia na casa da Tia Cida? Papai precisa conversar umas coisas importantes com os primos e como a mamãe não está, preciso que você venha comigo.”
Apesar da pouca idade, Carlinhos já tinha um mínimo de bom senso constituído. Sabia que ia perder o dia todo no meio daquela barulheira onde não tinha nem uma televisão pra ver desenho animado. Com a voz lunar dos que ainda não tem o aparelho fonador plenamente constituído replicou de maneira seca:
“Não, pai... lá é chato... numquéro...”
O pai, com o plano já traçado na perversa mente adulta, tratou de dar seu golpe mais baixo:
“Mas, olha filhinho, se você for passar o dia na casa da Tia Cida comigo eu te compro um presente bem legal! Você não quer um desses carros de controle remoto que mostram na televisão? Então, se você for com o papai, papai compra um desses pra você amanhã. E aí? Topa? Vamos lá?”
É claro que o Carlinhos topou no ato. Aliás, até eu toparia passar um dia na casa de um monte de parentes chatos pra ganhar um carro de controle remoto; e assim foram pai e filho para um dia de muitas aventuras.
No caminho de ida, o moleque não parava de fantasiar com o carrinho que ia ganhar. Pulava no banco de trás (porque Tito era um filho da puta, mas um filho da puta consciente e só levava criança no banco traseiro) imaginando que levava o carro pra escolinha, que brincava com ele na garagem e no fim de ano poderia levar o brinquedo para a praia. O pai no banco da frente sorria satisfeito e antevia um dia bem divertido com os primos bêbados, a Tia Cida e a delícia da Jussara, a empregada. Será que ela ainda trabalhava lá?
Atravessaram a cidade e finalmente chegaram. Depois de umas poucas buzinadas estava toda a família no portão para recepcionar os dois.
“Aewww, Putão! Parece que cê ta mais gordo!”
“Mãe, olha esse moleque como tá grande! Já deve estar batendo punheta!”
“Trouxe um whiskão aqui pra nóis!”
“Que menino mais lindo! Olha que bochechudo! Mostra o documento pra Tia Cida, mostra? Ahhhh, ele tá com vergonha! Vamos entrando!”

“Tem uns gatos pra assar, vamos lá no quintal, primo!”
Bom, pensando bem, acho que eu não toparia passar o dia com parentes em troca de um carro de controle remoto. Aliás, como esse dia demorou pra passar, pro Carlinhos, pelo menos. Tito se divertia horrores na presença dos primos.
Contaram piadas, beberam feito uns gambás (se é que gambás consomem bebida alcoólica), assaram carne e brincaram de dar soco uns nos outros. Tito, alterado pela bebida, não conseguia desviar os olhos da bunda da Jussara, às vezes ia até a cozinha com o pretexto de jogar restos no lixo pra ficar secando a empregada. A Jussara sentia um fogo no meio das pernas, mas sabia que podia ser mandada embora pela rigorosa Dona Cida, por isso evitava dar bola para o tarado do sobrinho dela.
E o Carlinhos? Ficou em um canto brincando em um jardinzinho. Cada minuto durava uma hora para o pobre menino. Ele só não reclamava porque a recompensa por aguentar aquilo tudo seria muito boa.

Assim o tempo foi passando, passando e passando.
Quando o relógio bateu oito horas da noite, o Tito se levantou e tratou de dar no pé. Não queria que a mulher chegasse em casa e o pegasse naquele estado. Se saísse nesse horário dava tempo de tomar um banho, escovar os dentes e colocar o guri pra dormir, aliás, isso não seria problema, pois Carlinhos já estava dando pequenas cochiladas fazia algum tempo.
Tito voou pelas ruas da cidade. Chegou em casa com Carlinhos dormindo profundamente. Colocou pijama no filho e o embalou nos lençóis. Missão número um, cumprida.
Escovou os dentes, engoliu um coquetel de aspirina com engov e tomou um banho demorado. Era uma fórmula mágica: ninguém dizia que há algumas horas atrás estava quase vomitando de bêbado. Missão número dois, cumprida.
Tito ficou na cama esperando a patroa. Quando Arlete chegou, ainda pegou a esposa de jeito e transaram madrugada adentro. Enquanto se amavam brutalmente, Arlete pensava no quanto havia tido sorte na escolha do marido; Tito pensava na bunda da Jussara. Dormiram. Fade out.
Fade in. Tito acorda. Está com um pouco de dor de cabeça. Levanta e vai preparar um café para a esposa que descansa após o dia de trabalho bruto e a noite de amor selvagem. Chega na cozinha e Carlinhos está sentado na mesa.
“Oi, filhão! Por que você acordou tão cedo?”
“Pai, é que eu quero ir comprar meu carrinho que você pometeu pra mim”
Tito faz uma cara de dúvida. Coloca a mão no queixo. Olha para o menino e pergunta:
“Carrinho, filho? Que carrinho? Papai não prometeu nada de carrinho pra você...”

Carlinhos começa a ficar bravo.
“Você pometeu um carrinho porque eu fui na Tia Cida cumvocê onti!”
Tito sorri. Pega o filho no colo e embala ele num gostoso abraço.
“Filhão... você deve ter sonhado com isso! Dormiu o dia todo ontem e hoje acordou achando que foi na Tia Cida. Nós ficamos aqui. Nem botamos o pé pra fora de casa ontem. O pai não prometeu nada não. Sou seu pai, ora, se prometo eu cumpro. Você sonhou, campeão!”
Carlinhos com um dedo na boca mira o chão da cozinha contemplativo e diz num murmúrio:
“Humm... é, acho que foi sonho...”
Tito... seu FILHO DA PUTA!

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